
Estamos sempre diante de fenômenos. A maioria se faz perceber pelos nossos sentidos. Tomemos o exemplo do fogo. Quando o fogo está queimando a madeira, percebemos a claridade, os olhos estão em atividade; percebemos o calor, o tato está em atividade; percebemos o cheiro, o olfato está em atividade; percebemos o som das chamas consumindo a madeira, a audição está em atividade. Deveria estar acontecendo apenas isso, mas não! Deveria haver apenas o objeto e o seu observador. Mas não é só isso...
O cego pode perceber parte desse fenômeno, ele pode sentir o calor, o cheiro, o barulho... Mas ele não pode ver a imagem, não pode ter a experiência da imagem, então alguém diz: “você está perdendo, deixando de ver o espetáculo, as cores lindas que tem o fogo” – e isso o faz sentir-se incompleto. Uma outra percepção tem o surdo, ele pode ver o clarão, o cheiro, o calor, mas permanecerá alheio a experiência do som que ali está.
Quando um fenômeno está se desenrolando, algumas coisas podem ser percebidas e outras podem ser perdidas. Além do fenômeno, não são só os sentidos que estão funcionando! Está ativo o prazer ou o incomodo, porque há o que acha bonito; o que acha feio. Há o que sente atração e há o que sente repulsão. Há o desejo; há a rejeição. Há o que pode ver e o que deseja ver e não pode...
O cego não pode sentir prazer na imagem, ele está impedido de vê-la. Igualmente, o surdo não pode ter prazer no som, o som está separado dele. Nada disso seria ruim se fosse encarado como um fato. Mas como a coisa é encarada como um problema, então surge o sofrimento. Assim, diante dos fenômenos há sofrimento, por falta de discernimento, entendimento.
Edson Carmo